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A COVID-19 onde não existe água potável

09-04-2020 Leitura 4 Minutos 3

Ajuda em Ação

Todos sabemos que a água potável é um recurso fundamental para prevenir a propagação da COVID-19. No entanto,, em zonas rurais, como na povoação de El Salado, na Colômbia, nem sequer existe água potável, o que dificulta ainda mais o combate ao coronavírus. Como evitar a pandemia nesta situação?

É quarta-feira de manhã e Sharol Amaya España, de 15 anos, neta de Manuel España, lava os pratos com a água suja que está numa bacia, porque no sítio onde vivem não existem aquedutos ou esgotos. O resto da família, os dois filhos menores e a esposa de Manuel, ocupam-se com outros afazeres do lar. Manuel España tem um total de 10 filhos que vivem em diferentes zonas de El Salado. A fazenda é grande, tem três quartos, uma casa de banho, uma sala de jantar e um espaço exclusivo para os produtos agro-biológicos, livres de químicos, para aplicar na produção agrícola. As paredes são de taipa, as portas de tela verde e o teto é construído com folhas de palmeiras e latas. Situa-se na vila Emperatriz, no município de El Salado, nas terras onde grupos de paramilitares, durante três dias, cometeram um dos piores massacres da história da Colômbia, no ano de 2000.

Entretanto, Manuel España de 52 anos, um agricultor de pele morena, magro e de estatura baixa, mãos grandes e trabalhadoras, amarra um par de canecas à mota e prepara-se para ir ter com um amigo que lhe oferece água boa para consumo, a Carmen de Bolívar, o município mais próximo da sua vila. Ele vai até lá todos os dias, na maioria das vezes de mota, mas quando é obrigado a ir a pé demora duas horas para cada lado. Embora haja um tanque para armazenamento de água na entrada da vila, como acontece com todos os outros, não é possível abastecê-lo com água potável, uma vez que a água distribuída, uma vez por semana, pelos camiões-tanque da autarquia de El Carmen de Bolívar pelas vilas de El Salado não é suficiente para satisfazer toda a comunidade de La Emperatriz. Por essa razão, Manuel prefere ir todos os dias ter com o seu amigo para, desta forma, evitar que mais pessoas vivam sem água.

Camilo Andrés España de 9 anos, filho de Manuel, lava as mãos numa bacia branca e corre atrás de uma galinha que desce a colina onde está situada a fazenda, por um caminho estreito, coberto de pedras e lama seca. Sete minutos depois, chega ao pé de um jaguey – um pequeno depósito superficial de água – que está seco, já que há quatro meses que não chove na região. O menino procura não se picar na árvore que possui espinhos e provoca comichão quando toca na pele. Antes de seguirem caminho, Manuel juntamente com Sharol, baixam-se para ajudar o menino. Neta e filho tiram as sandálias e lavam os pés com a água que resta junto ao jaguey. Camilo, com o olhar perdido na orla das montanhas que o rodeiam, mergulha a bacia para que se encha daquela água da chuva, amarela e contaminada pelo gado. Manuel España explica que, em casa, esta água apenas é utilizada para lavar a loiça e a roupa e não para consumo, uma vez que provoca diarreia nas crianças. Ao acabarem de encher a bacia, os três voltam a subir a colina.

A vida não é fácil nas vilas de El Salado. A maioria das pessoas já foi vítima de violência, de migrações forçadas e de secas prolongadas. A comunidade que vive na vila de El Espiritano é das mais afetadas pela falta de chuva, pois o mau estado das estradas impede a chegada dos camiões-tanque que distribuem a água. Mas não são os únicos. As comunidades das vilas de El Respaldo e El Cascajo sofrem do mesmo problema em tempos de seca, uma vez que os camiões evitam subir os caminhos estreitos que vão dar a estas zonas. Numa cadeira de baloiço, Manuel España explica que a maioria das pessoas que vivem nas vilas mais distantes, no alto da montanha, quando ficam sem a água da chuva que vão armazenando em tanques, bebem a água que fica parada junto aos jagueyes, sem se importarem com o facto de estar suja e contaminada, uma vez que esta é a única água que têm para sobreviver. Manuel explicou também que não falta muito para que os dois jagueyes que possui estarem completamente secos, sendo assim obrigado a ir todos os dias de burro buscar água a um jaguey comunitário que existe na vila. Isto é, terá de percorrer um caminho de meia hora para cada lado para poderem lavar os bens essenciais que têm na fazenda.

Já são quase dez da manhã, os raios de sol são tão fortes que até impedem as pessoas de se moverem. Sharol Amaya continua a lavar os pratos com a água que recolheram do jaguey, numa cozinha sem lava-loiça e que apenas possui duas bacias: uma para remover a água que não está em bom estado e outra para conter a água contaminada e os restos de comida. Manuel España prepara alguns produtos agro-biológicos para plantar nos seus terrenos: “A Ajuda em Ação ensina-nos, a nós agricultores, técnicas de agricultura biológica, ou seja, a não utilizar químicos nos nossos produtos agrícolas, porque desta forma podemos cuidar da terra e da saúde das pessoas que consomem os nossos produtos. Na realidade, tenho muito orgulho de ser um dos produtores da região”. É hora de ir buscar a água potável para que a sua mulher, Ana Lucia Vásquez, possa preparar o almoço. O caminho até à vila de La Emperatriz está livre, por isso espera não se demorar.

Numa altura como estas, em que a principal preocupação é que a COVID-19 se propague rapidamente e se perca o rasto dos contagiados, é fundamental que as medidas de prevenção se estendam às zonas rurais, porque a maioria nem tem locais adequados para tratar dos seus doentes, nem possui as condições básicas para evitar que as pessoas fiquem contagiadas. Na Colômbia existem muitas outras famílias como a de Manuel, onde nem sequer há água potável para as pessoas lavarem as mãos. É por isso que a Ajuda em Ação apela à solidariedade e responsabilidade coletiva que temos uns para com os outros: é nossa obrigação cuidarmos de nós e dos mais vulneráveis. Em momentos como estes, a água salva vidas. Para a Ajuda em Ação, é fundamental promover o acesso sustentável a água potável, dando prioridade aos contextos que mais sofrem com o impacto da seca de forma recorrente.