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O futuro das mulheres Lencas constrói-se com igualdade

30-12-2021 Leitura 3 Minutos 3

O futuro das Honduras está a ser construído por mulheres como as desta história. Estanislao, Alba e Fanny são avó, mãe e neta. As três são Lencas, um dos nove povos indígenas do país, ao qual pertencia também a conhecida ativista Berta Cáceres.

Viajámos até à comunidade de San Antonio, no departamento de Lempira, para conversar com elas sobre o seu passado, presente e, sobretudo, o futuro que perspetivam para a sua comunidade.

Passado, presente e futuro das mulheres Lencas nas Honduras

Melhoraram os seus direitos como mulheres e indígenas? A sua vida atual é mais fácil que dantes? Como imaginam o seu futuro? Saiba como mudaram os papéis das mulheres Lencas pelo testemunho de três gerações.

Um passado marcado pela desigualdade

Quando olham para o passado, Estanislao e Alba deparam-se com uma barreira comum: a desigualdade de género.

A avó Estanislao, com 62 anos de idade, estudou apenas até ao 3.º ano. Quando a sua mãe faleceu, teve de deixar a escola e ficar em casa a cuidar dos seus três irmãos mais novos.

Nessa altura, Estanislao tinha apenas 9 anos. A partir de então as suas tarefas centraram-se em cozinhar, coser e fazer o papel de mãe. Casou-se muito jovem e sofreu de violência doméstica por parte do seu marido.

Nessa época, conta-nos, não havia nenhuma organização de mulheres que pudesse apoiá-la, pelo que procurou apoio da igreja e, depois de alguns anos, ganhou forças e deixou o seu marido.

Na minha altura ninguém conhecia organizações ou redes de mulheres, dedicávamo-nos apenas à casa, à cozinha e a servir o marido.

Alba começou também a trabalhar duramente em casa desde os 7 anos: «a minha mãe punha-nos a lavar a loiça, moer milho, cozinhar tortilhas, recolher lenha, acender o lume…». As suas memórias de infância têm um sabor agridoce devido ao sofrimento de Estanislao:

Recordo muita felicidade, mas havia tempos em que me preocupava e me sentia triste quando olhava para a vida que a minha mãe levava, uma vida muito dura… Ela era discriminada e eu não dizia nada, apenas observava e armazenava essa raiva no meu coração.

Um presente de empoderamento

Fanny tem 16 anos e com a sua mãe e avó aprendeu a importância de lutar pelo empoderamento das mulheres Lencas.

«Conheço bem os meus direitos e também como devo fazer se os violarem», afirma sorridente e segura.
A sua avó observa-a, orgulhosa e acrescenta: «agora ouvimos as mulheres a dizer: vou a uma reunião, uma formação. As suas vidas serão diferentes, sem violência e com participação.

Ajuda em Ação e a liderança das mulheres Lencas

Alba é todo um exemplo não apenas para a sua família, mas para toda a comunidade. Juntamente com outras companheiras, lidera a Rede de Mulheres de Santa Cruz, destinada a posicionar o papel social e económico das mulheres Lencas. Graças a um grande trabalho de incidência realizado por mais de 300 mulheres, acabam de conseguir abrir um espaço próprio.

Esta rede é fruto do trabalho da Ajuda em Ação com a Cooperación Española e o Organismo Cristiano de Desarollo Integral de Honduras (OCDIH) para fazer frente aos obstáculos que impedem milhares de mulheres de serem protagonistas do seu futuro. Servirá como espaço para formação em temas como empreendimento, assim como de reunião para dialogar e agir em defesa dos seus direitos. Também poderão exibir e vender produtos como tecelagens, confeitaria, ovos e carne, o que lhes permitirá melhorar a situação económica das suas famílias.

Como traçam o seu futuro?

Quando se entusiasmam a traçar o seu futuro, surge de imediato um denominador comum: uma comunidade mais desenvolvida que apoie o empreendimento da mulher.

Este desenvolvimento traduz-se em melhorias como mais escolas com salas tecnológicas, um centro de saúde próximo da comunidade, um instituto técnico e energia para todas as casas e negócios. A sustentabilidade também pesa nos seus planos que incluem variedades de sementes para cultivar, canais de água, terra fértil e rica em minerais ou fazendas de café ecológico.

Graças ao apoio da Ajuda em Ação, asseguram, este futuro está mais próximo que nunca.

«Esta organização nunca nos abandonou, o seu acompanhamento está a ser fundamental, ainda mais agora com os desafios da pandemia», acrescenta Alba ao despedir-se.

Continuaremos a trabalhar para fomentar o desenvolvimento e a igualdade de género entre as povoações indígenas das Honduras. O objetivo? Um futuro digno e sustentável para todas as pessoas. Contamos consigo para o atingir?