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Ajuda em Ação e VIDA: juntas pela resiliência ambiental e alimentar em Moçambique

04-12-2020 Leitura 4 Minutos 3

Ajuda em Ação

Separado da cidade de Maputo por um rio, o distrito de Matutuíne é uma das regiões mais pobres e marginalizadas desta província moçambicana. Aqui, as famílias enfrentam diariamente duas duras batalhas: contra as alterações climáticas e contra a insegurança alimentar, pondo em causa a sua subsistência e aumentando a sua vulnerabilidade. Neste artigo queremos explicar-lhe como é que a ONGD VIDA, em parceria com a Ajuda em Ação, está a fortalecer estas comunidades e a torná-las mais resilientes a nível ambiental e alimentar.

A agricultura sustentável é a chave para combater os efeitos das alterações climáticas

“Matutuíne tem sofrido imenso com as alterações climáticas e cada vez é mais difícil praticar a agricultura”, começa por explicar Sara Sangareau, da ONGD VIDA. Trata-se de um distrito onde a maioria dos terrenos agrícolas são em areia e a terra é pouco fértil, em que o acesso a água de qualidade também é limitado e que é frequentemente assolado por grandes secas e inundações que afetam a produção agrícola das comunidades. Mitigar os efeitos das alterações climáticas e adaptar a prática agrícola às mesmas são dois aspetos cruciais para tornar estas comunidades maioritariamente dependentes da agricultura mais resilientes.

Em 2011, a VIDA, juntamente com a Ajuda em Ação, apostou na criação de associações de camponeses para que estes, ao trabalharem em conjunto, pudessem aumentar a sua capacidade de produção e aprender novas práticas agrícolas e técnicas de cultivo adaptadas ao clima. Este projeto acabou por ficar concluído em 2018 com a formalização destas associações, dando origem à União das Associações Agrárias de Matutuíne (UAAMAT) e à construção da Casa Agrária, sede da UAAMAT. Atualmente, estamos a explorar com as comunidades de Matutuíne um novo conceito agrícola: a agroecologia. “O que estamos a tentar fazer agora é trabalhar com as comunidades uma nova metodologia de agricultura, que passa pela melhoria dos solos com a introdução de matéria orgânica, uma prática barata e fácil de replicar pelas famílias”, conta-nos Sara Sangareau.

Numa comunidade altamente dependente da agricultura, este trabalho de adaptação às alterações climáticas é fundamental para garantir a sua segurança alimentar. “A insegurança alimentar é as pessoas não saberem de facto se vão conseguir alimentar a família ou com que frequência o vão conseguir fazer. E isso acontece no distrito, até porque a agricultura é bastante difícil”, alerta a representante da VIDA.

Para conseguir tornar as comunidades de Matutuíne mais resilientes a nível ambiental e alimentar, a VIDA desenvolveu ainda um Centro de Experimentação Ambiental em Djabula, uma das localidades do distrito, para poder testar técnicas e práticas agrícolas adaptadas ao clima que possam ser adotadas pelas comunidades. “Temos os canteiros agroflorestais, temos feito plantio, temos um viveiro de árvores nativas para depois podermos plantar nas comunidades e, no passado, houve também muitas parcerias com instituições educativas no sentido de a própria comunidade científica poder testar ali em condições reais”, refere Sara acerca das atividades que a VIDA desenvolve no Centro.

Rede de ativistas com papel fundamental no empoderamento da comunidade

A par da resiliência ambiental e alimentar, este projeto aposta também no empoderamento da comunidade através da sua formação e partilha de conhecimentos. Para isso, o projeto conta com o apoio de uma rede de cerca de 50 ativistas voluntárias, compostas por mulheres na casa dos 40 e 50 anos, que pertencem às associações de camponeses e que procuram ajudar a combater a vulnerabilidade de outras famílias que, como elas, dependem da agricultura e não têm as condições necessárias para garantir a sua segurança alimentar.

Estas ativistas são responsáveis por reforçar os conhecimentos destas comunidades vulneráveis ao nível da nutrição e de cuidados de saúde básicos e também de sinalizar os casos que necessitam de apoio médico para que os serviços de saúde os possam auxiliar. Esta rede de mulheres assume assim um papel fundamental no empoderamento das comunidades e na sua formação, transmitindo informação de confiança e mensagens claras sobre questões que afetam o seu dia a dia. Para Sara Sangareau, “estas mulheres são iguais às outras pessoas que estão a apoiar, a única diferença é que elas têm tido capacitação” e acrescenta: “o que está aqui em causa é a sua valorização dentro das comunidades e o facto de elas saberem mais e isso poder contribuir para a melhoria da vida dos pares”.

Com a chegada da Covid-19, todas estas atividades sofreram um abrandamento para que as equipas pudessem adaptar-se a esta nova realidade. A rede de ativistas foi uma das iniciativas mais afetadas pela pandemia. “Basicamente reduzimos os nossos encontros e acabámos com aqueles que juntavam mulheres de comunidades muito distantes umas das outras para não estar a misturar as ativistas”, esclarece a representante da ONGD VIDA.

O futuro dos projetos da VIDA e da Ajuda em Ação em Matutuíne

Para a VIDA, a continuação deste projeto é essencial para assegurar a segurança alimentar das comunidades de Matutuíne, bem como a sua resposta e adaptação às alterações climáticas. De acordo com Sara Sangareau, a rede de ativistas continuará a ser um dos focos centrais da intervenção das duas ONGD, sobretudo no sentido de conseguir que estas mulheres “sejam atores reconhecidos pelos serviços de saúde e ação social”.

A questão da resiliência ambiental também seguirá como um dos pilares de ação, mas, além da adaptação das práticas agrícolas às alterações climáticas, a VIDA pretende contribuir também para o reflorestamento do distrito. “Nós temos um viveiro florestal em que estamos a multiplicar árvores nativas e a ideia é fazer recuperação de algumas zonas que estão degradadas”.

Sobre a parceria com a Ajuda em Ação, o objetivo é que esta se mantenha e que comecem até a desenvolver mais projetos em conjunto. “A ideia é começarmos a desenhar uma estratégia, sobretudo para a província de Maputo, que faça sentido para as duas organizações”. Juntos, somos ajuda!