O Manuel tem 46 anos e vive numa pequena comunidade pertencente ao município de Chilón, no estado mexicano de Chiapas. Graças a uma pequena horta que instalou nas traseiras da sua casa, semeia milho e feijão para alimentar a sua família. A sua economia familiar, tal como a da maioria dos habitantes deste estado do Sul do México, era sustentada pela produção e comercialização de café. E dissemos bem, era sustentada… Agora, o Manuel apenas consegue satisfazer algumas das suas necessidades mais básicas e da família. Porquê? Por causa dos preocupantes efeitos das alterações climáticas no México.
Chiapas e o café: um impacto sem precedentes
Segundo dados publicados pelo Instituto Nacional de Ecologia e Alterações Climáticas do país, 72% dos municípios do estado de Chiapas são vulneráveis às consequências deste fenómeno. No caso do café, a alteração do ciclo de chuvas e o aumento das temperaturas prejudicaram as plantações, que são muito sensíveis a este tipo de variações meteorológicas. Para além disso, esta situação favoreceu a proliferação de pragas. A mais devastadora foi a da ferrugem, uma doença que afeta as culturas, causada por um fungo e cujo aparecimento está diretamente relacionado com as consequências das alterações climáticas.
Chiapas é um dos berços do café mexicano, o produto mais comercializado no mundo inteiro depois do petróleo. Os efeitos deste fenómeno provocaram consequências negativas nas vidas dos produtores chiapanecos. É que a principal fonte de rendimentos das famílias é a produção e comercialização deste produto, cuja qualidade e volume diminuíram drasticamente nos últimos anos. Tudo isto afetou de forma negativa a economia familiar dos habitantes desta região.
A batalha do México contra as alterações climáticas
Os dados da pobreza e da fome no México apresentam números com oito algarismos. Mais de 52 milhões de pessoas são pobres, 25 milhões (que representam 20,4% da população) vivem em situação de pobreza alimentar e mais de 15 milhões (12,5% dos mexicanos) encontram-se numa situação de desnutrição crónica.
Na luta contra a fome, as pessoas mais vulneráveis são as que provêm das zonas rurais. É o caso do México e de outros países do Corredor Seco da América Central, onde a maioria delas trabalham e vivem no campo.
Neste país, este fenómeno traduziu-se em:
- Aumento da desertificação.
- Desaparecimento dos glaciares.
- Escassez de recursos hídricos no Norte e grandes inundações no Sul.
- Aumento da temperatura.
- Variações nos ciclos de chuvas.
- Perda de florestas e vegetação, devido ao aumento de incêndios florestais.
Combater os efeitos das alterações climáticas tornou-se num tema urgente no México. Tanto é assim que este foi o primeiro país em desenvolvimento a implementar uma Lei das Alterações Climáticas que envolve uma estratégia a longo prazo para mitigar os seus efeitos.
A nossa receita para a mudança no México
- Garantimos que as famílias tenham acesso a uma alimentação saudável e variada
Na região de Yautepec e nos municípios chiapanecos de Ocosingo e Chilón, por exemplo, estamos a instalar hortas em escolas com pré-escolar, ensino básico e secundário. Com elas, os alunos podem aprender a cultivar a sua fruta e hortaliças de forma ecológica e desenvolver uma alimentação nutritiva a partir destes ingredientes.
Também incentivamos as famílias a terem uma dieta mais variada. Realizamos formações para os adultos em Yautepec, Chilón e Sonora, onde aprendem a preparar pratos com nopal. Este alimento, para além de originário da região, possui um elevado valor nutricional e um baixo custo.
Além disso, distribuímos sementes e plantamos árvores de diferentes espécies. No caso de Yautepec, instalámos dois bancos comunitários com mais de 90 variedades diferentes de sementes, entre as quais feijão, milho, tomate, pimentão ou cebola.

- Promovemos a produção agroecológica no México
Para as comunidades rurais do México, este tipo de produção não é nenhum mistério, uma vez que tem sido utilizada desde há séculos. No entanto, cada vez há mais famílias que estão a começar a utilizar herbicidas para acelerar o crescimento das culturas, o que está a provocar a perda de riqueza dos solos e a contaminação da água.
No município de Chilón, os produtores estão a aprender a fabricar fertilizantes agroecológicos. Em Yautepec, os camponeses já sabem como analisar o solo dos seus terrenos e determinar quais os produtos que melhor se adaptam a cada tipologia de solo.
As crianças e adolescentes de Sonora organizam-se em grupos para promoverem campanhas de reflorestação, de separação do lixo e de proteção da água nas quais envolvem toda a comunidade.
- Criamos oportunidades
Em qualquer família, a estratégia mais eficaz para garantir a sua segurança alimentar passa por gerar rendimentos. Por isso, apostamos na educação, na formação profissional e na dinamização do comércio local.
A cooperativa Kisisal em Chiapas, por exemplo, está a aprender a armazenar, conservar e comercializar o mel que produzem graças às nossas formações. Também em Chiapas, damos apoio a outra cooperativa de produtores de Santa Lucía para que se profissionalize, ensinando-lhes estratégias de gestão e organização. Em Sonora, apostamos no empreendedorismo feminino e ajudamos a construir empresas sociais, o que criará novas oportunidades de emprego na região.
Em todas as comunidades que apoiamos no México, promovemos o acesso a uma educação de qualidade e desenvolvemos ações para evitar que os alunos abandonem os estudos precocemente.
“Após a descida do preço do café, a emigração começou a aumentar bastante na nossa comunidade, porque as famílias não eram capazes de dar resposta às necessidades do seu lar. Isto afeta particularmente os jovens entre os 13 e os 15 anos, que são obrigados a deixar as suas casas em busca de emprego. Graças às iniciativas desenvolvidas pela Ajuda em Ação, os meus filhos conseguiram terminar o ensino básico e secundário e terão assim mais hipóteses de encontrar um emprego”, explica Manuel.
Esta é a situação urgente que o México enfrenta, região onde as alterações climáticas estão a provocar consequências devastadoras para a população. É preciso fazer algo urgentemente para ajudar as comunidades locais a lutar contra este fenómeno e a mitigar as suas consequências.
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