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A violência em Cabo Delgado: o nosso trabalho com as pessoas deslocadas

10-11-2020 Leitura 4 Minutos 3

Ajuda em Ação

Na região de Cabo Delgado, no norte de Moçambique, vive-se uma grave tragédia humanitária provocada pela violência causada pelos autodenominados insurgentes, que estão a provocar mortes e deslocamentos na região. Uma das ONG presentes nesta zona é a Ajuda em Ação. Lá realizamos ações para dar resposta às necessidades da população com o objetivo de aliviar o sofrimento das pessoas e dar-lhes acesso a serviços básicos.

Violência em Cabo Delgado, um conflito que se arrasta desde 2017

O conflito de Moçambique começou a ser notório em finais de 2017, mas foi a partir de 2019 que os ataques se tornaram mais violentos, organizados e frequentes. Segundo o Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU entre janeiro e junho de 2020 ocorreram 195 incidentes. A Amnistia Internacional assinalava em outubro que mais de 2.000 pessoas morreram vítimas de diversos ataques.

Numa situação como a atual, no meio de uma pandemia global, podem exacerbar-se outros fatores, como neste caso ocorre com a violência em Cabo Delgado. O primeiro ministro do país, Carlos Agostinho do Rosário, apontou em finais de outubro de 2020 para mais de 435.000 deslocados provocados pela violência em Cabo Delgado. Segundo meios de comunicação locais, estima-se que cerca de 150 embarcações com aproximadamente 12 mil pessoas chegaram à cidade de Pemba (capital de Cabo Delgado) só entre os dias 16 e 27 de outubro. Todas as pessoas que chegam, fazem-no para fugir das áreas mais afetadas pela violência, distritos a norte da região como Macomia, Quissanga, algumas ilhas do arquipélago de Quirimbas, Palma e Mocímboa da Praia.

A Ajuda em Ação e a resposta humanitária face à violência

Trabalhar no meio de uma situação como a descrita não é fácil, mas para dar resposta a esta tragédia, a Ajuda em Ação utiliza toda a experiência adquirida  durante a resposta de emergência ao ciclone Kenneth que prestámos em 2019. Atualmente, realizamos trabalho relacionado com água, higiene e saneamento, mas também distribuímos utensílios de primeira necessidade e apoiamos na instalação de campos de deslocados.

O nosso trabalho para dar resposta à emergência resultante da violência no norte de Moçambique centra-se principalmente na zona de Metuge, área próxima de Pemba, onde neste momento ajudamos cerca de 10.000 famílias deslocadas. A Ajuda em Ação é uma das organizações de ajuda humanitária mais presentes na zona. Isto facilita o nosso trabalho, ajuda-nos a contar com a confiança da população e a sermos uma referência para os líderes oficiais e informais.

O que diz a nossa equipa de Cabo Delgado?

O nosso trabalho começou após os ataques a Quissanga de março. Nesse local, 10.000 pessoas não tinham para onde ir, nem sabiam quem poderia apoiá-los. O governo disponibilizou abrigos provisórios à população de Metuge para que tivessem espaço para se instalar, pensando também na difícil tarefa, dada a situação, de manter o distanciamento social devido ao perigo de infeções por COVID-19.

Resposta de emergência aos conflitos em Cabo DelgadoSophia, responsável pela área de Ajuda Humanitária, conta-nos como começámos a trabalhar imediatamente: “Construímos imediatamente latrinas. A higiene é a questão mais importante neste tipo de situações, uma vez que a cólera é endémica e já houve surtos que pudemos controlar. Capacitamos a população em boas práticas de higiene e distribuímos utensílios de cozinha”.

Além da Ajuda em Ação, toda a comunidade se voltou para os deslocados. As famílias anfitriãs abriram as suas casas para recebê-los. É emocionante ver tanta solidariedade… Não esqueçamos que são comunidades que não têm muito a oferecer, que já enfrentavam duras condições antes da chegada dos deslocados, com os quais agora partilham o pouco que têm. Também os ajudámos: construímos mais de 200 pontos de lavagem das mãos em locais públicos, bem como latrinas. Além disso, distribuímos utensílios essenciais.

As pessoas mais vulneráveis, prioridade em situações de emergência

A proteção de toda a população é transversal e as pessoas mais vulneráveis ​​são prioritárias. Ao desenvolvermos o nosso trabalho pensamos sempre nos riscos que a situação implica para as mulheres.

“Se não houver latrinas para as mulheres, elas são obrigadas a ir para o campo com os riscos que isso implica. Por esta razão, ao construir latrinas, nós dividimo-las em latrinas para homens e mulheres e, assim, minimizamos os riscos. Além disso, colocamos lâmpadas para prevenir casos de violência sexual. Vamos ter um balcão de proteção no novo centro de acolhimento, onde atenderemos as mulheres que se sentem ameaçadas ou que sentem riscos em melhorar a sua situação” (Abide, Gestor de Programas).

Crianças e a violência em Cabo DelgadoA infância também permanece no centro do nosso trabalho. Abide diz-nos que pretendemos realizar atividades recreativas para mitigar o trauma das crianças afetadas pela violência em Cabo Delgado. “As crianças sofrem muito com esta situação: perderam a sua rede social, a sua vida normal. Para restaurar a normalidade nas suas vidas, iremos propor atividades para que elas passem tempo a brincar como as crianças devem fazer”, conta.

COVID-19 e a população deslocada, risco duplo

Nos centros de alojamento que temos em Cabo Delgado, ainda não registámos casos de COVID-19, mas quando surgirem, o problema pode ser grave. Se for o caso, a nossa equipa local trabalhará para lidar com uma doença de propagação muito rápida, no entanto é um risco que queremos evitar a todo o custo.

Para isso, semanalmente os nossos técnicos e facilitadores locais realizam ações de consciencialização para a prevenção do contágio, disponibilizando pontos de água para a população lavar as mãos e distribuindo materiais como máscaras e álcool gel.