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O impacto da COVID-19 em África: doenças, fome e pobreza

26-06-2020 Leitura 4 Minutos 3

Ajuda em Ação

O continente africano estava ainda a recuperar dos efeitos da última epidemia de ébola, quando o impacto da COVID-19 em África veio comprometer significativamente o seu futuro. Neste artigo, analisamos as consequências da pandemia desde diferentes perspetivas. Junta-se a nós?

Impacto da COVID-19 na saúde das pessoas em África

No início desta crise, e tendo em conta que se pensava que o novo coronavírus afetava, sobretudo, as pessoas mais velhas, previu-se que em África, o vírus teria um menor impacto, dada a média de idades do continente. No entanto, a realidade demonstrou que, ainda que os números gerais de mortalidade no continente sejam hoje inferiores aos da Europa ou América, não é possível baixar a guarda. Só nos últimos dias de abril verificou-se um aumento de 40% no número total de contágios. A OMS estima que, até ao final do ano, é possível chegar aos 10 milhões de pessoas infetadas.

COVID-19 nos sistemas de saúde africanosNa realidade, não existem certezas sobre esta questão da incidência do novo coronavírus em África, mas pode ser que efetivamente, e como se pensa, as altas temperaturas ajudem a diminuir a propagação do vírus. Contudo, os baixos valores podem denunciar a incapacidade dos sistemas de saúde para contabilizar o número real de casos. Ou também a insuficiência de testes de diagnóstico (apenas estão disponíveis 500.000 testes para 1.300 milhões de habitantes, quando na verdade seriam necessários, pelo menos, 74 milhões). Sem esquecer, claro, o facto de muitas pessoas viverem longe dos centros de saúde. E esta situação, juntamente com as limitações de deslocação devido à quarentena, podem despoletar uma verdadeira crise.

Sistemas de saúde

Em África, os sistemas de saúde públicos sofrem de grandes fragilidades para conseguir fazer frente a uma emergência sanitária desta envergadura. Em alguns países, os ventiladores existentes a nível nacional podem contar-se pelos dedos das mãos. De acordo com a previsão das Nações Unidas, durante este ano serão precisos, pelo menos, 30.000 ventiladores em todo o continente.

Riscos para a saúde

Não se trata apenas dos sistemas, mas sim da própria condição de saúde e imunológica das pessoas. Está comprovado que a COVID-19 afeta mais aqueles cujos sistemas imunitários já estão debilitados. Num continente onde os números da fome continuam a ser alarmantes – 257 milhões de pessoas sofrem de fome -, a malnutrição pode ser um dos grandes entraves na luta contra o novo coronavírus. E não nos esqueçamos da outra grande pandemia que se alia à COVID-19 em África: a do VIH-SIDA.

O impacto da pandemia em África poderá fazer o continente retroceder cerca de vinte anos nos progressos alcançados em matéria de saúde, se não forem tomadas as medidas adequadas.

Interrupção dos calendários de vacinação e monitorização

COVID-19 levou à interrupção dos programas de vacinaçãoA questão das vacinas merece aqui uma atenção especial. Os programas de vacinação foram interrompidos, o que está a gerar um crescimento de outras doenças, que afetam sobretudo os mais novos. É o caso da poliomielite e, se nada for feito, o mesmo acontecerá com o sarampo, uma doença muito mais contagiosa e letal do que a COVID-19.

Além disso, não esqueçamos os efeitos do abandono dos programas de monitorização de outras doenças, como a malária. Espera-se que este ano, como consequência direta da COVID-19, as mortes por malária quase dupliquem. A maioria dessas mortes corresponderão a crianças.

Confinamento devido à COVID-19: solução ou problema?

Como acontece no resto dos países em desenvolvimento, a maioria dos trabalhadores africanos vive da economia informal. O confinamento está a empobrecer milhões de famílias, que se veem obrigadas a escolher entre protegerem-se do vírus ou ter o que comer. Em média, cada família em África gasta entre 60% a 80% dos seus rendimentos em alimentação. Sendo a maioria destes países grandes importadores de alimentos, a procura faz os preços disparem e a comida agora, mais do que nunca, não é suficiente para garantir uma alimentação saudável.

A esta questão junta-se o problema da sobrepopulação nas grandes cidades africanas, onde se adivinha impossível, com o desconfinamento, ter de se manter a distância social recomendada, o que pode levar ao surgimento de novos surtos ou à cronificação da pandemia.

Além disso, o confinamento e a consequente crise financeira que se vive nos países mais desenvolvidos também está a afetar África. As remessas enviadas por familiares estão a diminuir drasticamente devido à perda de emprego registada nesses países.

A cooperação para o desenvolvimento é essencial na luta contra a COVID-19 em África

O desenvolvimento de África depende, em larga medida, da ajuda internacional. Os programas de emergência são necessários, mas também é fundamental levar a cabo outras medidas adicionais que já estão a ser delineadas por diferentes organismos. Uma delas seria a redução da dívida. Não esqueçamos que os países africanos consignam, em média, entre 15% a 30% das suas receitas fiscais ao pagamento dos juros da sua dívida externa. O valor, na maioria dos casos, é superior ao disponibilizado para fortalecer os sistemas nacionais de saúde e de educação. As perdas provocadas pelo impacto da COVID-19 nas economias africanas só irão contribuir para aumentar essa dívida, já  difícil de controlar.

Mas, sem dúvida, que o trabalho contínuo e sustentado ao longo do tempo, no que diz respeito à cooperação para o desenvolvimento e à ajuda humanitária, é fundamental para dar resposta a crises como esta. Na Ajuda em Ação levamos a cabo uma nova forma de trabalho chamada Nexus.  Com esta abordagem, apostamos na resiliência e trabalhamos para que a recuperação após a catástrofe – neste caso sanitária, mas que envolverá muitos outros aspetos – seja sustentável e para que as pessoas sejam as protagonistas do seu próprio desenvolvimento. Assim, esta forma de trabalho permite-nos reduzir a necessidade, o risco e a vulnerabilidade.