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A luta contra o absentismo escolar durante a pandemia contada por quem está no terreno

31-07-2020 Leitura 4 Minutos 3

Ajuda em Ação

Mário Barros, animador social do Agrupamento de Escolas de Camarate, colabora com a Ajuda em Ação e tem tido um papel fundamental no nosso projeto conjunto para combater o absentismo escolar nesta comunidade e promover um futuro recheado de oportunidades. Com a pandemia, a nossa intervenção foi interrompida e o seu trabalho teve de mudar: sempre com uma motivação exemplar, começou a ir porta a porta entregar e recolher os trabalhos de casa dos jovens que apoiamos.

Diminuir o abandono e o insucesso escolar com proximidade e confiança

Aos 52 anos de idade – mais de 20 passados a trabalhar em ação social, sobretudo com crianças e jovens -, Mário Barros sabe bem que o acompanhamento, a proximidade e a confiança são a chave do sucesso para reduzir o absentismo escolar. Para o animador social, é fundamental ouvir-se os jovens, saber o que eles precisam e, sobretudo, “os silêncios”, aquilo que não dizem.

Em Portugal, no ano passado, 10,6% dos jovens abandonaram o sistema de educação e formação sem obter uma qualificação de nível secundário. Mário acredita que, para combater estes números, é necessário motivar os jovens e ajudá-los a gerir a suas expectativas em relação ao futuro, mostrando-lhes as oportunidades que podem surgir e alguns dos caminhos que poderão percorrer para lá chegar. O animador dá o exemplo de jovens que têm expectativas profissionais muito baixas pelo quadro de referência familiar em que vivem, porque “a mãe, o pai ou o irmão fazem todos isto e não precisam de estudar muito e eles acham que é ali que está o seu futuro”.

Com a chegada da pandemia e o encerramento das escolas, centenas de alunos ficaram sem aulas, sem o acompanhamento de profissionais e sem materiais para aceder às aulas virtuais. Neste contexto, o absentismo escolar começou a tornar-se uma realidade cada vez mais próxima e foi fundamental encontrar uma forma de manter alguma proximidade e apoiar as crianças, nomeadamente ao nível da alimentação – sendo que 77% dos alunos do agrupamento já beneficiavam de ação social escolar – e das tarefas escolares. Assim, Mário fez-se à estrada, com ânimo e uma missão por cumprir, para entregar e recolher os trabalhos de casa das crianças e jovens do Agrupamento, numa média de 120 famílias por semana. Esta intervenção permitiu ainda sinalizar várias crianças que estavam afastadas da escola desde, pelo menos, o início do ano.

As implicações da pandemia no combate ao absentismo escolar em Camarate

Do outro lado, conta-nos impressionado Mário Barros, havia quem o esperasse ansiosamente na varanda. “Havia um miúdo que ficava na varanda do avô até eu chegar”, contava-nos de sorriso nos lábios. “Eu chegava às 16h e ele dizia-me que estava lá desde as 9h à minha espera e dos trabalhos, para que eu não passasse sem ele me ver”. De acordo com um estudo da NOVA SBE, em média, 23% dos alunos portugueses não têm um computador com acesso à Internet. No caso de Camarate, para as crianças que vivem nesta situação, durante o período de confinamento devido à COVID-19, Mário era o único ponto de contacto com a escola e também com o mundo exterior, fora das quatro paredes em que estavam confinados.

Ainda assim, com o otimismo e paixão que o caracterizam, o animador acredita que toda esta situação provocada pela pandemia pode até ter contribuído para uma maior valorização da escola por parte das crianças e jovens. “Parece-me que este afastamento só vai jogar a favor da escola”, explica Mário Barros. Acrescentando que “o jovem que está num processo de absentismo, sentiu durante este período, que em casa há regras e uma certa formalidade que não se consegue ultrapassar. E os jovens precisam de fazer o seu processo de crescimento normal, de estar com amigos, com os pares, de terem as conversas deles, que não são iguais às que têm com um adulto. Penso que no final desta situação teremos melhores alunos”.

A entrega de cartões de apoio alimentar em Camarate

Ajuda em Ação distribui cartões de apoio alimentar em CamarateMário Barros fez também parte da equipa que distribuiu cartões de apoio alimentar a 71 famílias da freguesia de Camarate, uma iniciativa da Ajuda em Ação com a parceria do Agrupamento de Escolas de Camarate D. Nuno Álvares Pereira, a Associação de Pais (APDNAP) e a Junta de Freguesia de Camarate, Unhos e Apelação. Trata-se de famílias referenciadas e acompanhadas pelos responsáveis, sendo que muitas já beneficiavam de apoios sociais. Surgiram também algumas “pessoas que perderam mesmo o emprego, perderam rendimentos e não tiveram problemas em pedir ajuda e apoio alimentar”.

Aqui, por vezes, o conforto é um apoio quase tão importante como o alimentar. Do outro lado, surgem famílias com estórias verdadeiramente tocantes, como refere o animador algo emocionado, e que precisam de muito mais do que apenas ajuda com a alimentação. É o caso, por exemplo, de uma mulher, mãe de um dos alunos do agrupamento já antes seguido pelo Mário, cujo marido sofre de uma doença terminal e que, para além da preocupação de ter comida para pôr na mesa todos os dias, vive angustiada pela forma como a situação do marido está a afetar os seus filhos. Nestes casos, o conforto que estes profissionais podem dar é a única resposta possível e também a mais importante.

Para o animador social, “a Ajuda em Ação tornou-se num peão fundamental na parte social do concelho de Loures. Um trabalho pioneiro e de fazer acontecer em tempos de crise”, explica. Mário considera que o facto de a ONG se ter conseguido adaptar e dar uma resposta às necessidades da comunidade de Camarate em tempo real foi determinante para enfrentar a crise da COVID-19. E nós só podemos agradecer o facto de contarmos com a dedicação e compromisso do Mário, numa fase tão especial. Desde abril, quando foi feita a primeira entrega dos cartões, até ao final de junho, data da terceira e última entrega, a Ajuda em Ação apoiou 71 famílias, num total de 264 beneficiários, entre os quais cerca de 150 crianças. Porque na luta contra a COVID-19 em Camarate, #SomosAjuda!

Em setembro, regressamos à escola

Em setembro, com o reinício das aulas presenciais, também Mário regressa às suas funções e desafios diários deste projeto. Um projeto que procura, sobretudo, investir em atividades de desenvolvimento pessoal que permitam a estas crianças e jovens desenvolver competências de autocontrolo, autoestima, resiliência e tornarem-se mais participativos no contexto escolar. Desta forma, a Ajuda em Ação espera contribuir para travar o absentismo escolar e promover um futuro com mais e melhores oportunidades para estas crianças e jovens, bem como para os seus familiares, com um foco muito grande no empreendedorismo feminino.