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Covid-19 e violência de género no Peru

23-12-2020 Leitura 3 Minutos 3

Ajuda em Ação

Após ultrapassar a crise política que afetou o país no passado mês de novembro, o Peru deve, alertam os especialistas, focar-se em impulsionar a sua recuperação económica, prevenir a segunda vaga da Covid-19 e garantir a transparência nas eleições de 2021. No entanto, há um outro tema que requer igual ou maior atenção: como travar a violência de género que, até esta altura do ano, já roubou a vida a mais de 110 mulheres.

A Covid-19, com os 107 dias de confinamento obrigatório em Lima e que noutras regiões se estendeu até ao passado dia 22 de novembro, afetou severamente o país. Em pouco mais de oito meses de estado de emergência, o número de pessoas infetadas ascendeu a 946.087, com uma taxa de mortalidade de 3,75% e um declínio económico trimestral na ordem dos 30,2%.

Neste contexto, a violência de género, um problema também pandémico, parece ter encontrado um terreno fértil para o seu crescimento. O confinamento foi, para centenas de mulheres, sinónimo de ter de partilhar o espaço familiar com o seu agressor. Noutros casos, a frustração, o stress e a ansiedade levaram a episódios de violência familiar. Também os papéis e os estereótipos de género jogaram contra as mulheres, que foram obrigadas a dedicar mais horas ao cuidado do lar e às lides domésticas e ainda a acompanhar os seus filhos nas aulas online.

Onde estão?

No final de julho, o Ministério da Mulher e Populações Vulneráveis informou que, durante a pandemia, 1.200 mulheres foram dadas como desaparecidas. Destas 1.200 mulheres, 66% são meninas e adolescentes e a restante percentagem encontra-se em idade reprodutiva. Algumas delas acabaram por ser encontradas mais tarde como vítimas de femicídios. Das restantes ainda não se sabe nada sobre o seu paradeiro ou também é possível que a família não tenha reportado o seu aparecimento.

Outro dado igualmente chocante é o do número de casos da violência sexual. De março a agosto, foram reportadas 5.370 agressões sexuais, das quais 600 dizem respeito a vítimas menores de idade. Também a Linha 100 contabilizou 101.344 denúncias relacionadas com violência de género nas suas mais diversas formas.

Violência estrutural

Marisu Palacios, especialista em género da Ajuda em Ação, considera que a pandemia, mais do que agudizar um problema já existente, veio expor a violência de género enraizada de forma estrutural na sociedade e que é suportada pelos papéis e estereótipos de género que reforçam o machismo.

“Há homens que durante a pandemia perderam o seu trabalho e não sabiam como sustentar as suas famílias, quando toda a vida sentiram que esse era o seu principal papel. Então, estão em casa, sem dinheiro, sentindo que já não são úteis, que são ‘pouco homens’. Isto deixa-os irritados com as suas companheiras porque sentem que elas também os estão a olhar dessa forma”, explica a especialista sobre como os papéis e estereótipos cultivam a violência.

Para desconstruir este paradigma machista, a Ajuda em Ação tem vindo a incorporar a questão do género, de forma transversal, em todas as suas linhas de trabalho. “Não se trata apenas de informar sobre os direitos das mulheres, mas também de identificar que espaços estão a ser limitados, tanto para homens como para mulheres, e como podemos torná-los equitativos para que qualquer pessoa se possa desenvolver de forma integral, seja em casa ou em espaços comunitários, na tomada de decisões, etc.”, refere Marisu.

Ajuda em Ação contra a violência de género

A especialista alertou ainda para a necessidade de deixar de categorizar homens e mulheres. “Esta divisão de papéis sociais faz com que, da mesma forma que as mulheres se veem incapazes de se desenvolverem a nível académico e profissional, também os homens se sintam limitados para se desenvolverem em determinados papéis sociais, como a paternidade que é mais emocional e social, que são importantes para qualquer ser humano. A ideia é sensibilizar e trabalhar com ambos para alcançar esse desenvolvimento equitativo”, conclui.

*Este artigo foi publicado originalmente em espanhol, no site da Ayuda en Acción Peru. Pode lê-lo aqui.