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Saúde Mental no Equador: consequências da Covid-19

28-12-2020 Leitura 4 Minutos 3

Ajuda em Ação

O Equador foi um dos países mais afetados pela Covid-19 na América Latina. Nos meios de comunicação chegámos a ver corpos na rua à espera de ser recolhidos. Na Ajuda em Ação contribuímos desde o início da emergência com apoio alimentar e material de segurança e médico, como os 50 ventiladores Oxyvitta que chegaram em agosto. Mas a saúde mental também é uma das nossas maiores preocupações. Hoje vamos contar-lhe a nossa abordagem a esta questão que já está a preocupar todo o país.

A crise da saúde mental faz disparar o número de suicídios

O suicídio começa a tornar-se uma preocupação neste país da América Latina. A Comissão de Direito à Saúde do Equador considera pertinente a declaração de uma emergência sanitária. No mundo ocorre um suicídio a cada 40 segundos e não é de estranhar que, como consequência da pandemia, a saúde mental de quem está mais vulnerável se esteja a deteriorar.

O Observatório Social do Equador tornou público que, entre 2014 e 2019, ocorreram 5.300 suicídios (entre dois e três por dia). A estes somam-se as tentativas de suicídios, cerca de 20 por cada suicídio consumado. Há pouco mencionámos que os casos de suicídio aumentaram no Equador desde o início da pandemia, sendo a província de Guayas uma das regiões que mais sofreu os duros efeitos da Covid-19. Estima-se que nos primeiros 10 meses do ano ocorreram 977 suicídios, mais de 3 por dia. São especialmente preocupantes os casos de jovens, inclusive, crianças e adolescentes. Na verdade, o suicídio é a principal causa de morte entre os adolescentes no Equador.

Perante a emergência, apresentamos soluções para melhorar a saúde mental da população

Os grupos mais vulneráveis da população também são quem mais está a sofrer com as consequências da pandemia. A falta de oportunidades e de perspetiva de futuro afetam não só a saúde física, mas também a saúde mental das pessoas que são o foco de trabalho da Ajuda em Ação.

Desde que começou a emergência humanitária na Venezuela que o Equador está a receber um elevado número de migrantes. Por isso desenvolvemos uma linha de trabalho que, além de apoiar ações de orientação legal como as que temos vindo a fazer através do projeto ECHO (UE), também presta apoio emocional aos migrantes.

“A nossa equipa detetou que muitas das pessoas em processos de mobilidade necessitavam de apoio psicossocial, especialmente as mulheres que sofreram de violência psicológica”, diz Patricia Salazar, responsável de comunicação da Ajuda em Ação Equador.

Com a declaração do Estado de Exceção por conta da pandemia da Covid-19, as condições económicas, sociais e emocionais dos migrantes agravaram-se. As pessoas que recebiam apoio psicossocial no nosso projeto antes da Covid-19 começaram a precisar de apoio alimentar. E a sua saúde mental não só não melhorava como piorava: “sofrem de ansiedade, insónias e apresentam irascibilidade com os seus familiares”, é o que nos contam no escritório da Ajuda em Ação no Equador.

Call Center de atendimento psicológico urgente

Dado o contexto, as ações do projeto que já tínhamos iniciado foi redirecionado para dar resposta ao que se passava. Assim nasceu o primeiro Call Center de atendimento psicológico que daria apoio psicológico a 1.500 migrantes a viver nas regiões de Ibarra, Guayaquil e Cuenca. Para atender a população, está disponível uma equipa de 10 psicólogos/as. O serviço superou largamente a receção esperada: só na região de Cantón e Ibarra foram feitas mais de 400 chamadas mensais.Call Center de atendimento psicológico

O serviço de apoio psicológico telefónico da Ajuda em Ação no Equador começou em maio com uma duração de seis meses. No entanto, os bons resultados e a elevada procura do serviço fizeram com que se prolongasse este serviço por mais 10 meses. Desta forma, podemos dar seguimento a casos que necessitem de um plano de acompanhamento sustentado por algum tempo.

Perfil dos utilizadores do Call Center de atendimento psicológico urgente

62% das pessoas que telefonaram para esta linha tinham idades compreendidas entre os 31 e 40 anos. Foram maioritariamente mulheres (cerca de 90%) que sofriam de depressão, ansiedade, condutas agressivas ou que eram vítimas de violência sexual. Além do acompanhamento psicológico, os utilizadores do nosso serviço também precisavam de apoio alimentar (40% das utilizadoras têm filhos com menos de 10 anos). Assim, é compreensível que entre as suas principais preocupações esteja a falta de emprego que lhes permita gerar rendimentos para pagar a renda das suas casas e progredir. Além destas inquietudes, também há uma certa preocupação com a xenofobia, um problema que muitos migrantes têm de enfrentar diariamente.

Mobilidade, um dos eixos de trabalho da Ajuda em Ação

Na Ajuda em Ação acreditamos que qualquer pessoa é livre e tem o direito de migrar dentro ou fora do seu país, mas consideramos que ninguém se deve ver forçado a fazê-lo por falta de oportunidades, pela perda de meios de subsistência por conta das alterações climáticas ou por se encontrar em contextos inseguros ou em risco de viver situações de violência.

Por isso, abordamos o fenómeno da mobilidade das populações desde a sua origem e de forma integral: se as pessoas que acompanhamos tiverem a necessidade de abandonar o seu país ou cidade de origem de forma forçada, a Ajuda em Ação acompanhá-la-á no seu caminho para garantir a sua proteção e as suas necessidades básicas. É nesta última vertente que estamos a trabalhar no Equador através do projeto que abordamos neste artigo.

*Este artigo foi publicado originalmente em espanhol, no site da Ayuda en Acción Ecuador. Pode lê-lo aqui.